Longeviver LGBT+
Pesquisa sobre o envelhecimento da população LGBT+ em Belo Horizonte, em parceria com a Prefeitura.
Objetivo
O Longeviver LGBT+ produziu o diagnóstico do envelhecimento da população LGBT+ de Belo Horizonte. Investigou o processo de envelhecimento, as violações de direitos e a percepção sobre o acesso e a qualidade dos serviços públicos, inclusive as instituições de longa permanência. O objetivo foi subsidiar políticas públicas voltadas a esse grupo. O projeto foi desenvolvido em parceria com a Coordenadoria de Direitos da População LGBT da Prefeitura de Belo Horizonte.
Como a pesquisa foi feita
O contrato com a Prefeitura de Belo Horizonte foi assinado em fevereiro de 2021 e a pesquisa foi concluída em abril de 2023. A coleta combinou um questionário online com pessoas LGBT+ de 60 anos ou mais residentes em Belo Horizonte e entrevistas em profundidade pela metodologia de história de vida. Ao todo, foram 114 questionários válidos e 75 entrevistas, gravadas e transcritas, com cerca de uma hora e meia cada. Por se tratar de uma população de difícil acesso, recorreu-se à amostragem em rede (Snowball Sampling, ou Bola de Neve). Tanto o questionário quanto o roteiro das entrevistas foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG, e os dados das entrevistas são sigilosos e não são divulgados de forma identificável.
As entrevistas foram organizadas em oito temas, que estruturam o relatório: subjetividades e envelhecimento; sexualidade e identidade de gênero; violências e discriminações; cuidados e instituições de longa permanência; saúde; cultura, lazer e ativismo político; acesso à renda e empregabilidade; e serviços públicos. A pesquisa foi conduzida por equipe interdisciplinar, com pesquisadores do Direito, da Psicologia, das Ciências Sociais, da Ciência Política e das Letras da UFMG.
Quem respondeu
Entre quem respondeu ao questionário, a maioria estava recém-chegada à velhice: 64% tinham de 60 a 64 anos, 27% de 65 a 69 e 8% mais de 70 anos. No quesito raça, 68% se declararam brancos e 30% negros (pretos e pardos). Em orientação sexual, predominaram gays (68%), seguidos de lésbicas (25%) e de pessoas pan e bissexuais (4%); em identidade de gênero, 49% eram homens cisgêneros, 16% mulheres cisgêneras e 4% pessoas trans e travestis. A maioria era solteira (58%) e quase metade (48%) vivia sozinha. A renda individual mensal concentrou-se nas faixas de R$ 3.400 a R$ 5.500 (26%) e de R$ 5.600 a R$ 11.000 (26%), mas 8% recebiam menos de um salário mínimo — desigualdade que se acentua entre pessoas trans e travestis, com menor renda e escolaridade.
Principais achados
- Violência atravessa toda a trajetória. 68% das pessoas que responderam ao questionário afirmaram já ter sofrido violência ou discriminação por serem LGBT+; nas entrevistas de história de vida, esse número chega a 80,9%, com episódios desde a infância até a velhice — violências físicas, morais, sexuais, patrimoniais, psicológicas e institucionais. Já na velhice, 45% relataram ter sofrido violência ou discriminação.
- Velhismo somado à LGBTfobia. Entre quem detalhou as agressões, 38% sofreram piadas preconceituosas, 22% foram evitados ou isolados, 14% sofreram xingamentos, 9% ameaças, 6% violência física e 5% perseguição. Mais de um quarto já sofreu repressão por demonstrar afeto em público.
- Solidão é a marca do envelhecimento. De todos os sentimentos mapeados, o mais recorrente foi a solidão, seguida pelo medo: 76% da amostra apontou a vivência desses sentimentos na velhice, independentemente do grupo.
- Sair (ou não) do armário na velhice. Hoje, 52% revelam sua identidade de gênero e/ou orientação sexual para todas as pessoas e 45% apenas para alguns grupos; só 3% não revelam a ninguém — um contraste com trajetórias marcadas, no passado, por maior ocultamento.
- Saúde e vida com HIV. A maioria dos idosos cisgêneros gays e bissexuais não se sente confortável em falar abertamente sobre um diagnóstico de HIV, marcado pelo estigma da epidemia e pelo luto de pessoas próximas; ainda assim, relatam satisfação com os tratamentos disponíveis. No atendimento médico, 94% dizem a verdade sobre sua identidade e sexualidade.
- Receio das instituições de longa permanência. O cuidado na velhice e as instituições de longa permanência (ILPIs) aparecem cercados de apreensão — sobretudo o temor de discriminação e de ter de voltar ao armário em ambientes não preparados para acolher pessoas LGBT+.
- Baixo alcance dos serviços públicos. Apenas 10% das pessoas usavam os serviços públicos municipais voltados à população LGBT+, sinal de desconhecimento ou de barreiras de acesso a políticas que já existem.
Encontros e lançamento
Em junho de 2022, o projeto realizou o Café Diversidade, um encontro presencial entre a equipe e as pessoas entrevistadas, pensado para criar redes de afeto entre pessoas idosas LGBT+. O lançamento dos resultados aconteceu em junho de 2023, com a presença de autoridades municipais, estaduais e federais, entre elas o Secretário Nacional do Idoso.
Recomendações de política pública
A pesquisa propõe que as políticas para pessoas idosas e para a população LGBT+ sejam atentas às demandas interseccionadas de quem vive essa dupla condição. Aponta sete dimensões específicas: saúde na velhice LGBT+; espaços de convivência e trocas; relações familiares; cuidados; acesso a direitos sociais; viabilização das velhices trans e travestis; e enfrentamento da violência ageísta e LGBTfóbica.
Continuidade: Direito ao Envelhecimento LGBT+
A partir de julho de 2024, o projeto teve continuidade sob o nome Direito ao Envelhecimento LGBT+, dedicado à análise do amplo volume de dados reunido na primeira fase e a novas ações de engajamento. A pesquisa segue a metodologia de amostragem em rede e busca mapear o acesso a direitos da população idosa LGBT+ em Belo Horizonte e na Região Metropolitana. Considerando suas duas fases, o Longeviver atingiu cerca de 300 pessoas idosas.
Produtos
O projeto encontra-se atualmente em fase de revisão dos dados coletados para uma segunda rodada de análises, com publicação prevista para 2027.
Projeto registrado no SIEX/UFMG: 1ª fase, Longeviver LGBT+ (nº 404080, 18/02/2021 a 31/05/2024, concluída); 2ª fase, Direito ao Envelhecimento LGBT+ (nº 405025, 30/07/2024 a 31/12/2027, em desenvolvimento). Parceria com a Diretoria de Políticas para a População LGBT da Prefeitura de Belo Horizonte.